a million parachutes

for us

21 abril 2003

:: smile

sra. dalloway, estou escrevendo essas palavras neste caderno tosco encantado com o cd que há pouco gravei para você. já pude transpô-lo para uma fita e assim me desprendo como se fosse passarinho (1) das máquinas grandes para ficar com este walkman que ouço agora no ônibus. essa é minha mediação com o mundo que passa muito rápido lá fora através da janela. estou meio encabulado (2) em lhe escrever, mas não sei como nos manter próximos estando você com suas coisas urgentes e eu com as minhas.

gostaria de ter um avião (3). gosto da idéia de voar. gosto da idéia de não ter meus pés no chão por alguns momentos. como os pássaros. de alguns maquinários a gente se livra, de outros ficamos dependentes. máquinas de sonhos, máquinas de projetos pneumáticos. no ônibus sinto uma gravidade diferenciada, imagino que ao seu lado as dores devem ter outros pesos. nesse caderninho nem cabe a imensidão que é estar sentado na janela e naquele banco mais alto que fica em cima da roda. se eu abrir a janela, vem um vento e posso esquecer (4) um pouco das coisas terrestres. mas acho prudente voltar. esquecer demais também nos exila de outros prazeres e questões. posso imaginar você rindo de tudo que te conto, sra. dalloway. posso sim. e só posso isso com os meus pés no chão.

fico imaginando por que os anjos não sonham... parece que é porque eles já são um. alguém que pode voar é merecedor de meu respeito. mesmo que seja por alguns segundos de milésimo. mesmo que seja o tempo de saltar do ônibus para outras vidas. se eu tivesse asas talvez tivesse menos razões para anotar tudo nesse caderno. quem tem asa não precisa tanto de memória. mas somos miseráveis (5). precisamos nos ater a tudo que possa nos ferir. a vida maçante, procurar emprego, ouvir desaforos e descrenças, guerras e violências. as pessoas que entram, já entram cansadas do dia. o ônibus é feito de pessoas que não querem estar ali. olho para a janela e parece que há muito mais sorte lá fora. pessoas mais satisfeitas e talvez felizes. oh, que bom, alguns deles entram e me tiram a impressão que todos somos feitos de fadiga no final do dia.

fico assim: de um lado ouço murmurios dos que voltam, de outro passam rápido as falas dos que ficam. na minha vida(6), sra. dalloway, vc faz parte das duas coisas. umas horas, fica; outras, você vai. eu projeto cenas de um futuro sonhado. e sinto uma saudade que não deveria existir ainda. meu lugar não é lugar. o ônibus vai indo embora. todos os cenários são escorregadiços e mesmo que possa imaginá-la, sra. dalloway, em quase todos esses lugares, vou-me perdendo nesse itinerário. preciso trocar as pilhas. um momento.

será que vou perdendo o afeto como a energia que se esvai das alcalinas que comprei hoje? espero que a vida útil (7) seja sempre positiva. tem vezes que deixo o rádio ligado sem querer e me desaponto com a falta de energia em horas inapropriadas para faltas. espero que sempre aproveite todas as coisas que lhe são oferecidas e melhor, conquistadas. espero que tenha valido mta coisa a pena. para mim vale mto.

sua vida é linda, sra. dalloway, sua vida deixa a vida dos outros também linda. sua vida é linda. se você se sentir triste, preste atenção e não perca o controle. todos estão olhando. todos estão ouvindo. alguns podem ler essas confissões. mas ninguém pode fazer o que só você pode fazer por você (8). com os olhos abertos, você pode mudar o mundo reinventando; com os olhos fechados pode esconder melhor o choro de tanto amar. não é isso que costuma fazer geralmente, sra. dalloway?

será que você vai saber o quanto penso em você com o meu coração? ainda é a menina mais bonita... (9)

sabendo ou não, ainda estou na minha nave (10) voltando para casa. imaginando anjos nas caras das pessoas. quero ir embora. quero chegar logo e mandar para você essas folhas que já se confundem com os deveres e listas e preços e telefones e anotações das coisas ordinárias. preciso de um exemplo de força e organização para estruturar melhor minhas idéias. ouve essa música (11), sra. dalloway, é suave como o jeito que baixa a cabeça e olha para mim. se eu pudesse ser alguém eu seria você (12).

todo amor que houver nessa vida (13) é muita coisa. as pessoas do ônibus acham o mesmo. pergunto para a senhor que está ao meu lado que concorda. as meninas do terceiro ano encostadas perto da vaga para cadeira de roda discutem um pouco e também concordam. o motorista acha que não e acelera pensando no insólito da sua certeza. quero um remédio que me dê alegria também. porque sinto sua falta, sra. dalloway, nos veremos em breve (14)? não sei se o ônibus que tem pressa ou meu coração que bate mais devagar. já é o final da terceira folha e a fita já está quase acabando. eu querendo que as coisas saiam direito, mas nem tudo pode ser do jeito que a gente quer (15). e você sabe muito melhor que eu. gosto da idéia de que podemos trabalhar conspirando a favor de outras esperanças que não essa: ser feliz.

talvez se tentasse mais, fosse mais comum que sorrisse (16). começo a gostar da idéia de que esse texto tão vão ecoará sorrisos em sua boca. o ônibus chega no meu ponto. as pilhas aguentam até amanhã e meu caderno já está se desfazendo de tantas freadas, buracos e acrobacias. quase decolei algumas vezes.

e as janelas estava tão sujas que pude voar em teus sorrisos refletidos nos vidros.

playlist:

1. songbird _ oasis
2. ask _ smiths
3. aeroplane _ red hot chilli peppers
4. we have forgotten _ sixpence none the richer
5. heaven knows i'm miserable now _ smiths
6. in my life _ beatles
7. time of your life _ green day
8. for you _ coldplay
9. o descobrimento do brasil _ legião urbana
10. leaving on a jetplane _ bjork
11. tarpoleon napoleon _ shelby lynne
12. se eu pudesse ser alguém eu seria você _ deja vu
13. todo amor que houver nessa vida _ cazuza
14. see you soon _ coldplay
15. you can't always get what you want _ rolling stones
16. smile _ weezer

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